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Memorial Infância

Page history last edited by PBworks 4 years, 9 months ago

Memorial da Minha Infância  -   No dia do meu nascimento, 30 de agosto de 1978, o que aconteceu no Brasil foi um jogo em que o Corinthians venceu o Jaú por 1 a 0. Será que foi por causa desse jogo que meu pai não acompanhou minha mãe até o hospital? Acho que não, agora lembrei que minha mãe foi para o hospital no dia anterior e eu nasci às 10h e 20m. Era uma quarta-feira. Minha mãe havia escolhido o nome de Éder, se nascesse um menino e quando saiu para o hospital, Hospital de Caridade em Taquara, com minha madrinha Neiva, disse que se nascesse uma menina se chamaria Cristiane, minha avó paterna e meus tios queriam que fosse Carolina, por causa de uma propaganda, mas minha mãe tinha medo que me apelidassem de Carola. Descobri que a “Tiazinha” nasceu no dia 03, do mesmo mês e ano que eu.

 

 

 Cris-3 meses

 

Comemorei meu primeiro aniversário ao lado da nossa casa, meus pais moravam em duas peças da casa de minha avó. No mês do meu aniversário comecei a falar. Fez dias muito bonitos por aqui, mas enquanto isso no dia 30 de agosto de 1979 o furacão David atinge Porto Rico. No mês de outubro, com 1 ano e 2 meses comecei a andar.

No ano de 1980, minha mãe voltou a trabalhar na mesma casa em que trabalhou desde solteira,  como empregada doméstica e eu ficava em casa com minha avó paterna. Mas isso não durou muito, porque minha avó não me agüentou. Ela dizia que eu não ficava com ela, ao menor descuido eu fugia para a casa da minha madrinha, que era ao lado da nossa. Ela é irmã do meu pai e meus primos eram todos mais ou menos da mesma idade e eu gostava de ficar lá. Então minha mãe ia parar de trabalhar, mas a patroa dela, a quem chamo de tia Lygia, disse a ela que experimentasse me levar junto. No início minha tia Liara ia junto, mas ela não gostou e aí eu ficava “por conta”, minha mãe diz que muitas vezes rolei escada abaixo, andando atrás dela.

          No dia 13 de junho de 1981, 1 ano antes da morte de minha avó, morre Mazaropi, comediante que meus pais gostam até hoje. Quando completei 3 anos, no dia 30 de agosto de 1981, ganhei uma linda festa. Neste dia também ganhei minha primeira bicicleta.

 

 Cris-3 anos

 

          No dia 13 de junho de 1982, faleceu minha avó materna, que morava no interior do município de Taquara. O velório foi na casa dela e lembro que senti muito medo de dormir na cama dela naquela noite. Eu ainda não tinha completado 4 anos, mas eu, minha mãe e minhas tias, que na época tinham 11 e 12 anos, lembramos que elas apanharam algumas surras da minha avó por minha causa. Sou a neta mais velha das duas famílias, do meu pai e da minha mãe, minha mãe conta que minha avó era “doente” por mim e minhas tias tinham que fazer tudo que eu quisesse. Neste mês, um Boeing da Vasp bateu contra uma colina quando tentava pousar em Fortaleza, matando 137 pessoas.

No ano de 1983, acredito que no mês de março, minha mãe procurou vaga numa escola estadual no centro de nossa cidade para que eu começasse a estudar no Jardim de Infância, mas não havia mais vagas então a patroa dela, tia Lygia, me matriculou na escola luterana, Escola Evangélica Dorothéa Schäfke, hoje Instituto Sinodal. A princípio foi feito um teste, para ver se eu me adaptaria e o que aconteceu foi que eu não queria mais ir embora, queria ficar na escola. Ela pagou meus estudos desta época até minha formatura do magistério. Minha primeira professora chamava-se “tia” Iene. Minha mãe lembra que a patroa dela me buscava na escola e um dia ela não apareceu em casa e a mãe resolveu me procurar na escola, ainda não tinha celular, rsrs. Quando a mãe chegou à escola a última servente que estava lá disse a ela que havia ficado na escola uma menina loirinha e que outra servente tinha levado para a casa dela que era perto do Mineouro, minha mãe nem sabia o que era isso, saiu chorando desesperada de volta, quando ia indo pela rua a encontramos. A tia Lygia havia passado na casa do Pastor e eu estava junto bem tranqüila, tinha brincado muito com os filhos dele e ia feliz sem noção de horário e nem preocupada com a mãe, que estava completamente desesperada tendo até que tomar calmante. Neste ano meus pais construíram nossa casa, onde eu tinha um quarto só pra mim.

 

               Cris-6 anos

   No ano de 1984, estudei pela manhã, na pré-escola, com a “tia” Marilene. Nesse ano sofri muito preconceito por ser pobre e não ter as mesmas coisas que meus colegas tinham. Lembro da colega que começou a estudar com nós neste ano, que era quem induzia as outras colegas a rirem e me isolarem das brincadeiras. Encontramos-nos na adolescência novamente, ela havia trocado de escola e depois retornou e conseguimos nos entender bem. Nesse ano ia para casa quase todos os dias com um macacão da escola, pois a tia nos convidava a sentar no chão como “indiozinhos”, era assim que ela dizia, e pedia que ninguém pedisse para ir ao banheiro pois iríamos cantar, como não era para pedir, eu fazia xixi nas calças. Esse também foi o ano em que Tancredo Neves foi eleito presidente do Brasil.

Em 1985 inicei na primeira série, com a “tia” Liege Foscarini, para mim foi um alívio, pois a outra professora de primeira série tinha fama de ser muito brava. Não lembro como aprendi a ler, mas sei que não peguei recuperação. Lembro que a professora estava grávida do seu segundo filho no final do ano e durante a aula de recuperação de meus colegas, fui até a escola levar um babeiro de presente para o bebê, ela perguntou o que eu achava que era e respondi com convicção que era uma menina, pois eu sabia que era o que ela queria, mas nasceu o Leandro. Nesse ano também abri minha primeira porteira, comecei a perder os dentes de leite.

Cris-7 anos

    Também tive problemas com uma cárie, tive que ir ao dentista que me convenceu a deixar de chupar bico, mas a mamadeira me acompanhou até os 11 anos. No mês do meu aniversário, agosto de 1985 o Boeing 747 da Japan Airlines que ia de Tóquio a Osaka cai e causa morte de 520 pessoas.

Em 1986, na segunda série, minha professora foi a “tia” Rosane. Trabalhando os meios de comunicação fizemos um sorteio com nossos nomes e cada um escreveria uma carta para o colega que sorteasse. Eu fui sorteada pela professora e esperei ansiosa pela carta que viria pelo Correio, na carta ela me convidou para passear na casa dela, mas como ela morava no interior eu acabei não indo, sou filha única e minha mãe não me deixava longe dela. Nesse ano, ao completar 8 anos, ganhei uma boneca de pano muito linda, da patroa da minha mãe, feita por ela mesma e ela também levou eu e minha mãe para passearmos na Expointer, em Esteio. Lembro que ela colocou a boneca numa caixa de papelão muito grande e encheu de jornal, como sempre fui muito chorona, procurei um pouco pelo presente e já ia começar a choradeira, desistindo da procura, quando ela me encorajou que continuasse porque tinha um presente ali dentro. No mês de maio, deste ano, 1986, a gaúcha Deise Nunes, havia sido eleita Miss Brasil.

A terceira série fiz no ano de 1987, com a “tia” Marli Haack. Não tenho muitas lembranças dessa época, mas lembro do meu caderno de matemática, com uma menina com balões nas duas mãos, acredito que estávamos aprendendo divisão. Amava tomar banho de piscina, desde pequena me divertia na água com o Jacques e a Gigi, filhos da patroa da minha mãe, que são 16 e 18 anos mais velhos que eu. No início só entrava na água com eles e de bóia, pois a piscina era muito funda, mas logo aprendi a nadar com meu pai, que me largava no rio onde “não dava pé” e dizia para me “virar”, então comecei a ir pra piscina sozinha, era meu programa favorito. No dia 13 de setembro aconteceu o acidente radioativo de Goiânia, Goiás. No ocorrido foram contaminadas dezenas de pessoas.        

 Em 1988, na quarta série fui aluna da “tia” Lili, que também tinha fama de brava, mas eu a achava muito legal. Também tinha aula de alemão com o professor Romério, que às vezes me deixava apavorada. Ele sim era bravo! E tinha aula de educação-física com a professora Fernanda, lembro das brincadeiras que ela fazia conosco na área coberta da escola. Nesse ano fomos a Santo Ângelo, São Miguel, conhecemos as ruínas e assistimos ao espetáculo de luz e som. No ônibus havia um microfone e cada um podia passar lá na frente e contar uma piada, lembro que fiz um fiasco, não gostava muito de participar, era tímida e resolvi contar uma piada, contei a piada mais “cabeluda” da viagem, só percebi isso quando a professora pegou o microfone e nos advertiu a termos cuidado com as piadas que iríamos contar. No dia 5 de outubro foi promulgada a Constituição Brasileira.

 

Essa foi minha vida do 0 aos 10 anos! Conversando com meus informantes lembramos de muita coisa e pensando bem daria um livro e não apenas um memorial.

 

Linhas de Tempo:

 

 

 
 Cris-6 anos
  Quanto a minha passagem pela escola percebo que apesar de ter estudado numa escola luterana até o primeiro ano do ensino médio e ter tido aula de ensino religioso da quinta-série até o primeiro ano com uma pastora, não fui “doutrinada”. Participávamos, no início de cada ano letivo, de cultos na igreja luterana e aprendemos sobre Martin Luther, mas lembro que realizamos trabalhos a respeito de todas as denominações e credos. O ensino nos meus anos iniciais foram bem tradicionais e à partir da quinta-série usamos muitos livros, não lembro de nenhum dos professores ter a preocupação em relacionar o que estudávamos com o que vivíamos. Após concluir o primeiro ano, onde peguei recuperação pela primeira vez e em 3 matérias, fui para um colégio católico para prosseguir meus estudos cursando magistério. Nesse colégio não freqüentávamos missas, nem aprendemos sobre a padroeira do colégio, mas fui chamada para conversar com uma freira quando a psicóloga do colégio contou a ela que eu estava assistindo cultos numa igreja evangélica. Nesse colégio convivi com o ditado: “faz o que eu digo, mas não faz o que eu faço”. “Aprendíamos” como “ensinar construtivamente” da forma mais tradicional possível, com exceção de algumas professoras, como as professoras de didática de matemática, de didática de linguagem, de didática de ciências e psicologia.
Hoje sou uma professora diferente das minhas professoras das séries iniciais em vários aspectos, principalmente no modo de desenvolver a aprendizagem. Procuro fazer com que meus alunos relacionem as suas vidas com o que estamos trabalhando, procuro partir dos seus interesses, da sua realidade. Mas às vezes me sinto desapontada, pois minha mãe nunca teve preocupações com minha aprendizagem, tendo eu um ensino tradicional e agora que nos esforçamos para dar o melhor de nós aos nossos alunos, a cada ano o desinteresse e o desrespeito aumentam e a aprendizagem fica mais difícil.
Por tudo isso, acredito que devemos ser exemplo aos nossos alunos, mostrando a eles que estamos fazendo tudo o que podemos por eles e principalmente, faze-los perceber que são capazes e tem condições de realizar grandes mudanças nas suas próprias realidades e na realidade da suas comunidades, dos seus municípios e assim por diante.  
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comments (2)

Anonymous said

at 6:40 pm on Jul 31, 2007

Cris! Teu memorial está uma graça. Uma escrita bem cuidadosa, trazendo fatos pessoais entrelaçados com fatos históricos. As lindas fotos completam o cenário, além das linhas de tempo bem elaboradas!! Abração, Sibicca

Anonymous said

at 2:20 pm on Aug 6, 2007

Oi Cris! Teu trabalho estás muito bem elaborado, completo, associastes os fatos de tua vida com fatos históricos, quanto ao preconceito que sofrestes por ser pobre, que bom que não deixastes te afetar por isso, nesse aspecto me identifico com você. Um grande abraço Elci

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